quarta-feira, 5 de setembro de 2007

Só o groove salva!

Sábado, Nordeste de Amaralina. Na laje, Quilombo Vivo grava seu primeiro CD de hiphop+afro+baiano.

Carla Bittencourt


-Silêncio na laje! Gravando!
A ordem vem de Gilberto Monte [tara_code], produtor musical do primeiro disco do Quilombo Vivo. Sentado na frente de um computador, fone no ouvido, Gilberto organiza na sua máquina o afro-hip-hop que vem de três canais: as pick ups de DJ Bandido e o verbo dos MCs Juno e Jacó. É sábado, fim da manhã. Começa a gravação no Nordeste de Amaralina. Ao invés de ar condicionado e isolamento acústico, temos sol forte, grito de menino jogando bola, buzina de carro, ronco de avião, cheiro de maresia. Estamos na rua Professor Luis Barrero, laje da casa dos irmãos Juno e Bandido.

Se é ali que nasce a batida deles, nada mais natural do que ser esse o lugar escolhido para colocar o som do Quilombo Vivo dentro de um disco, certo? A idéia veio da Eletrocooperativa*, ONG de Salvador que faz inclusão digital usando música: "Essas interferências é que são o som de Amaralina. Se alguém contar um fuxico aqui, vai todo mundo ficar sabendo", brinca Gilberto. Além do disco [que sem muitas promessas deve sair em julho], são gravados dois videoclipes: "O Valor da Liberdade" e "Canalizando o Ódio". Reinaldo Pamponet, coordenador geral da Eletrocooperativa reforça: "o esquemão fonográfico passa batido".
A escadinha para chegar na laje dá um frio na barriga. Não é alto nem nada, mas é melhor não vacilar. Na mesa de DJ Bandido, vinis das antigas de Gerônimo, Ilê Aiyê e Araketu reafirmam as referências baianas que estão na base do som que a Quilombo faz há cinco anos. Tem também o disco evangélico "A Última Trombeta", relíquia do tempo que o nome do mercado era Paes Mendonça e que vira um senhor sampler na faixa "Forca". Bandido manda tão bem que vai ser o único representante da Bahia no Red Bull Hip Hop Rua, festival que espera juntar 50mil pessoas em Porto Alegre no começo de junho.

Juno e Jacó a postos nos microfones. Ao redor, um varal improvisado estende camisetas com o rosto de Zumbi, Che Guevara e o símbolo da capoeira de mestre Bimba. Ícones de resistência e luta que também vão tatuados nos braços dos caras. Entre uma música e outra [ainda aquecendo] Juno conta que sua mãe já treinou capoeira com ele. E que a influência dos bolachões foi obra de seu pai, que fazia todos os 14 filhos em casa prestarem atenção na música.


Churrasco, cerveja e mais som

O clima é família, com direito a sobrinha pequena, cachorro na telha de eternit, amigo que chega para engrossar o coro, namoradinha que vem assistir. Dali de cima, os tijolos do Nordeste de Amaralina ganham outra perspectiva. Aquela música é a voz da periferia, que contamina os vizinhos e ecoa no asfalto. O recado deles, como diz uma das letras, é mais do que um grito - é um tapão no pé do ouvido. E quem bate é o hip hop* [ritmo, poesia, break, grafite, atitude cidadã, estilo de vida] que veio dos guetos dos EUA e ganhou jeito brasileiro nas quebradas daqui.

Mais gente chega na laje, o sol dá uma trégua. Uma folha de jornal colocada ao lado dos discos exibe o cotidiano violento no Nordeste de Amaralina, periferia que sofre com as rixas entre traficantes, com o preconceito estampado nas caras do asfalto, a falta de emprego, a escola ruim, a falta de opção mínima de lazer. É uma real política, que o Quilombo Vivo dá de forma bem direta e com estilo próprio. Eles descobriram como andar pela contramão.

Bandido: "Esse disco marca a nova fase do Quilombo Vivo. Estamos nos profissionalizando, saindo do obscuro, mas a levada continua a mesma". O que significa: tambor, pegada de funk americano, bloco afro e linguagem local. "O tambor da Bahia perdeu muito da sua força com essa massificação do axé e do pagode. A gente quer justamente resgatar essa batida", completa o DJ mostrando groove para deixar de cara quem pensa que hip hop é só dedo apontado e letra nervosa.

O headfone passa de mão em mão para mostrar o que já foi gravado. A essa altura, já está rolando o maior churrasco. A fumaça vai na estética do filme. Já são quase cinco da tarde e o clima tímido do começo se rendeu faz tempo. Tem pelo menos sete pessoas na laje gritando "bota a mão pra cima". A gravação ainda vai dar muito trampo, mas está na hora de descer. Agora, é esperar junho para sentir o resultado.

Não custa repetir - O hip hop é uma forte expressão cultural, jovem e urbana. Reúne basicamente três elementos: o rap, o break e o grafite. Surgiu nos guetos de Nova Yorque [Estados Unidos] na década de 70 e chegou ao Brasil no finzinho dos anos 80. De raiz periférica, o hip hop também é um estilo de vida, a maneira encontrada pelos negros, latinos e outros excluídos de cutucar as injustiças do sistema.

A Eletrocooperativa [rua João de Deus, 34, Pelourinho] é uma ONG novinha que trabalha inclusão digital através da música, atendendo principalmente garotos que já trabalham percussão em blocos afro da cidade. DJ Bandido, que dá oficinas de hip hop dá seu recado: "A música coloca esses meninos em contato com o mundo digital".

(A Tarde, 13/05/2004)

Um comentário:

patriciacarolinepacheco disse...

Gostei muito da Letra, estou fazendo um trabalho sobre a resitÊncia escrava e utilizarei o clipe como desfecho.Parabéns